Casa Mundo Particular
Arte, Ecologia e Arquitetura
2026
“A vida é selvagem e também eclode na cidade.” — Ailton Krenak
Habitamos diferentes casas. O corpo, o lar e o mundo que dividimos com uma infinidade de outros seres. Fazemos parte de um todo, mas insistimos na fantasia de que existe uma barreira entre natureza e humanidade.
O avanço das cidades naturalizou essa separação; construiu estruturas de conforto que nos afastaram, aos poucos, do sistema vivo do qual somos parte. Um embate silencioso se instaurou: entre o eu e o outro, entre a sobrevivência e a vida. E é a própria natureza quem responde, com a mesma força com que sobre ela impusemos nossa civilização. As mudanças climáticas não são mais um alerta no horizonte. São realidade. E nos cobram uma conta: repensar como habitamos essa grande casa comum.
Casa Mundo Particular nasce dessa tensão. O título carrega em si a estrutura do projeto: Casa nomeia o cotidiano, a intimidade, o abrigo. Mundo lembra que nenhuma morada existe isolada. Particular aponta para a singularidade de cada olhar – de cada pessoa, artista, comunidade que habita esse entrelaçamento à sua maneira. As três palavras funcionam em qualquer ordem. É aí que reside sua força: não há hierarquia fixa entre o íntimo, o coletivo e o planetário. Há circulação, atrito, sobreposição, comunhão.
A mostra propõe um movimento contrário ao avanço urbano sobre o verde – um reflorestamento simbólico do espaço doméstico. Uma casa que para de ser hermética, sólida, imutável e se deixa contaminar por possibilidades vivas: elementos orgânicos, memórias, materialidades que entram pelos cômodos e acordam o que havia adormecido.
E isso exige uma torção no olhar: e se a casa não fosse pensada para quem a visita, mas para quem já a habita – os fungos, as raízes, a luz que chega em ângulo raso às seis da tarde? A teoria multiespécie nos pede exatamente isso: tirar o humano do centro e treinar uma imaginação empática capaz de entrar em outros tempos, outras percepções, outras formas de crescer. Enquanto cientistas e políticos negociam metas, a arte propõe outra coisa: mudar o que conseguimos imaginar.
O próprio lugar escolhido para abrigar a mostra carrega camadas. O Apartamento 61 ocupa uma residência projetada em 1939 por Victor Brecheret – onde o escultor ítalo-brasileiro viveu com a família – e reformada duas décadas depois por Rino Levi. A galeria, dedicada à preservação do mobiliário brasileiro do século XX, traz em sua história questões que a mostra já levanta: arquitetura, pensamento ecológico, economia circular. Mas a história não fica como pano de fundo. A arquitetura afeta as obras; as obras afetam a arquitetura. Entre espaço, objeto e visitante, instala-se uma ecologia de relações.
A curadoria é de Lilian Fraiji. Nascida na Amazônia, ela cruza arte, natureza, ciências e saberes ancestrais, com atenção às relações entre cultura, clima e justiça ambiental. Um olhar que habita, como a mostra propõe, mais de uma casa ao mesmo tempo.
Casa Mundo Particular se afirma como território de encontro e escuta. Um espaço onde arte, ecologia e arquitetura se entrelaçam não para oferecer respostas, mas para cultivar perguntas: como coexistir de maneira mais sensível e sustentável? Como reconfigurar nossas noções de pertencimento? Como habitar o mundo para além da lógica de separação?
Ao propor uma experiência que atravessa o sensorial e o político, o projeto instaura um campo de reflexão onde o cuidado com a vida – em sua diversidade – se expande para além das paredes. Uma casa que respira, que acolhe e que se abre: ao outro, ao tempo e ao mundo.
Stefania Dzwigalska – Criadora
Ficha Técnica
A TRANSÄLIEN
BEATRIZ LINDENBERG
EDBRASS BRASIL
GRAMÁTICAS DA NATUREZA
MONICA VENTURA
NOVÍSSIMO EDGAR
RENATA PADOVAN
ROBINHO SANTANA
Artistas
Stefania Dzwigalska
Idealização e Direção Geral
Lilian Fraiji
Curadoria
Mariane Goldberg
Produção Executiva
Anderson Santos
Escola de Botânica
Consultoria
Alessandra Vinksnaitis
Louise Martins
Peça Olfativa
Santa Luz
Projeto de Iluminação
William Zarella Junior
Direção de arte
Diphusa
Ana David
Carol Consorte
Sofia Tegoshi
Design Gráfico
Pablo Ladeira
Coordenação de Comunicação
Giuliana Bergamo
Redação e Identidade Verbal
Magu Marioto
Catálogo 7
Direção de Video
Elástica
Cenografia e Montagem fina
Marton Estúdio
Goya Arquitetura
Eduardo Magliano
Construção de obra de arte
Jarreta Projetos
Engenharia
MMV
Multimídia
Folheando
Aïscha Lemos
Projeto Educativo
Joe Oliveira
Educador
Thamiris Ferreira
Produção de Campo
Maré Dissidente
Projeto de acessibilidade
WATT
Tradução e Revisão
Tormyc
Comunicação Visual
Index
Assessoria de Imprensa
Pedra
Jeff Ares
Relações Pública
Gris Contabilidade
Assessoria Contábil
Joyce Ellen Fernandes
Claudio Enrique Ferreira do Nascimento
Staff Patrimonial
Quinto Andar
Patrocínio
Apartamento 61
Givaudan
Apoio Institucional
Tête-à-Tête
Realização